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Cascais vai ter já em 2009 uma nova unidade hospitalar com gestão privatizada, na qual não estão contempladas, no caderno de encargos, as especialidades de infecciologia e de oncologia. Sendo este um assunto, que preocupa grandemente o GADS, pedimos ao Dr. Vera, responsável do Serviço de Infecciologia do Centro Hospital de Cascais, à Paula Oliveira, utente infectada pelo VIH/Sida que é acompanhada há mais de 10 anos neste serviço e ao Arq. Júlio Quaresma, Presidente no GADS, para darem a sua opinião sobre este assunto.

Dr. José Vera – Responsável pelo Serviço de Infecciologia do Centro Hospitalar de Cascais:
“Tendo iniciado o seu funcionamento no final de 1994, em resposta a um número crescente de pessoas infectadas pelo VIH, para quem o acesso ao tratamento em centros fora do concelho era escasso, difícil e perigosamente demorado, a Unidade de Tratamento de Imunodeficiência do Hospital de Cascais (HDDI), rapidamente viu crescer o número de utentes a que ela acorriam. Em 2000, com a colaboração da Comissão Nacional de luta Contra a SIDA, presidida na altura pela Prof. Odete Ferreira, foi possível construir as actuais instalações, onde funciona o Hospital de dia e se presta assistência a mais de 1000 doentes.
A infecção pelo VIH atinge todos os estratos sociais, não fazendo distinção entre sexos, credos ou cor, assumindo no entanto, uma dimensão mais gravosa para os mais fragilizados. O número de novos casos de infecção, uma das mais altas da Europa, torna preocupante a situação em Portugal. Sabemos que apenas o tratamento não é suficiente para controlar a epidemia. As medidas que conduzam à prevenção de novas infecções é uma componente essencial e só uma resposta concertada, tanto a nível nacional como a nível regional, de vários sectores da sociedade pode ser eficaz.
A colaboração das Organizações não Governamentais, aliadas ás estruturas hospitalares e não hospitalares de saúde e ao poder local, é uma realidade no Concelho de Cascais, que tem mostrado ser capaz de dar os passos necessários para unir esforços numa luta que é diária, dura e prolongada.
A hipótese de não ser possível tratar a infecção VIH novo Hospital de Cascais, com a transferência dos doentes para fora do concelho, é um facto que gera apreensão pelas repercussões negativas que terá, certamente a nível individual, e muito provavelmente a nível da saúde pública do concelho. Os fundamentos de tal decisão não têm qualquer suporte técnico e não é previsível qualquer ganho, mesmo que financeiro. As expectativas de ganho face ao novo hospital, essas sim ficam assim reduzidas, face ás restrições do perfil assistencial. Esperemos todos, utentes, activistas e profissionais de saúde, que o bom senso prevaleça.”

Paula Oliveira – Pessoa infectada pelo VIH/SIDA, acompanhada pelo Serviço de Infecciologia do Centro Hospital de Cascais, há mais de 10 anos.
“Em relação ao que me traz aqui, a minha opinião é simples. Isto só se trata
da incapacidade de quem por direito e dever tem de tomar a responsabilidade de assumir que errou ao elaborar o Caderno de Encargos do novo Hospital.
Cheguei a esta conclusão depois de ter pedido muita ajuda a quem me pudesse explicar como é que uma coisa destas podia estar a acontecer. Como é que se constrói um novo hospital e se rejeita os doentes com V.I.H.??? Revoltada, foi como fiquei quando soube disto, e tudo fiz e continuo a fazer para que isso não aconteça. Senti-me descriminada ao mais alto nível sendo eu doente de V.I.H., há 14 anos e sendo seguida neste hospital há 12, onde encontrei uma equipe singular, que nos atende na hora, que está sempre pronta para uma palavra amiga e tem sempre um ombro onde posso chorar nos momentos mais difíceis da minha caminhada nesta doença, que embora hoje em dia tenha meios para me dar uma qualidade de vida igual a tantas pessoas que não a têm, não
deixa de ser um vírus mortal que vive no meu corpo e tenta a todo o custo
destrui-lo. Cheguei a pensar que tudo seria uma questão de dinheiro, pois
todos sabemos que somos doentes muito "caros", esclarecida sobre isso,
percebi que também não fazia sentido tal coisa... Como tal, só posso chegar
à triste conclusão que há por aí alguém a tentar passar despercebido do erro
enorme que cometeu. No que me diz respeito, não vou  descansar enquanto isto não for resolvido e se voltar a rever o tal dito caderno de encargos. O que mais me irrita, é sentir que me estão a fazer de parva, quando me dizem que no novo hospital vamos poder beneficiar de duas novas especialidades, (que de facto, não existem no velho), como Neurologia e Psiquiatria, não revelam é que para isso acontecer estão a pôr de parte e a encaminhar para hospitais fora da nossa área, os doentes mais fragilizados, como os doentes Oncológicos e os doentes de Sida. Será que não lhes passa pela cabeça que somos doentes, mas não somos estúpidos???
Isto não pode acontecer, vão morrer pessoas em consequência de não terem poder monetário para se deslocarem a Lisboa, muitas delas com tratamentos diários, e que tanto têm lutado para viver...

Não vou parar, por mim e por aqueles que por vezes nem se sabem exprimir.
O meu MUITO OBRIGADO AO GADS, PELO APOIO QUE NOS TEM DADO, e por não desistir de lutar por algo que nos é indispensável para viver. O NOSSO HOSPITAL, OS NOSSOS MÉDICOS, AS NOSSAS ENFERMEIRAS, AS NOSSAS ADMINISTRATIVAS... Em duas palavras, A NOSSA VIDA.”

Arq. Júlio Quaresma – Presidente do GADS:
“Nós, GADS assumimos uma responsabilidade perante todos aqueles a quem damos apoio. Aqueles para os quais trabalhamos e por causa de quem existimos, um cada vez maior número de pessoas infectadas pelo VIH e que residem, sobretudo, no concelho de Cascais. Encaramos os processos de optimização funcional das instituições e as mudanças com a maior abertura, porque nos pautamos por uma política que se pretende activa e dinâmica, mas só a entendemos quando essa mudança reflecte uma melhoria nas condições de vida das populações em geral e dos menos capacitados ou mais fragilizados em particular.
Estamos perante uma realidade que atinge os valores mais altos de uma Europa comunitária, devido à ineficácia (inexistência) de políticas de prevenção e de informação, num País que tarda atavicamente em introduzir a educação sexual como matéria de facto na educação.  Actuamos num espaço que atravessa a intimidade de quem é afectado, num espaço temporal que é difícil e sobretudo longo. Perante uma realidade que não tem credo, nem cor, nem estrato social, só com afecto e com um profundo respeito pela individualidade e liberdade de cada um podemos ganhar a confiança de tentar promover uma vida mais qualificada.
Uma óptica de trabalho conjunto, concertando práticas complementares, é essencial no sentido de promover uma maior qualidade de vida àqueles que estão mais fragilizados, no tratamento da doença, mas também (e sobretudo) na prevenção, como única arma eficaz contra esta pandemia. Assim, são cada vez mais fundamentais as articulações próximas que envolvam: utentes, instituições não governamentais como a nossa, (o GADS) e as próprias estruturas governamentais, como as hospitalares e de segurança social e o poder local.
Não nos revemos numa política que cada vez mais compromete a nossa juventude, que cada vez mais se manifesta autista em relação aos princípios de humanismo, solidariedade e liberdade que nortearam uma revolução, que cada vez mais escamoteia a verdade e a transparência que devem enformar a vida pública em nome de interesses por vezes obscuros. Sobretudo, não nos revemos numa política que não respeita o cidadão, num estado para quem os nossos impostos (gastos no meio de tanto desperdício) não conseguem servir para que se possa comprar uma cadeira de rodas a um portador de mobilidade reduzida, ou para apoiar os mais fragilizados, aqueles que não podem muitas vezes deslocar-se, como será agora o caso, umas vezes por questões económicas outras porque a exposição pública da sua doença é no mínimo complexa e discriminatória.

Só com trabalho conjunto, confiança e respeito se pode fazer algo, num contexto cada vez mais grave e que o estado parece querer omitir. Não há pior cego que aquele que não quer ver...